Foi interessante a escolha de Quíron como O Hierofante no Tarô Mitológico. A associação óbvia reside na sua função como treinador dos heróis gregos, uma vez que o sentido geral da carta é o de sabedoria, em especial a espiritual. Todavia, o espiritual está bem representada de outra maneira menos óbvia na imagem.

O centauro é uma figura inumana. Essa representação unindo elementos humanos e animais foi muito utilizada na antiguidade para representar conceitos suprarracionais sejam naturais sejam pessoais (estes na linguagem psicanalítica conhecidos como “inconsciente”). O judaísmo por exemplo, tem a ideia de anjos, humanos com asas e antes dos semitas, os sumérios com suas figuras misturando touro, cabeça humana e asas chamadas “lamassu” e os gnósticos com o “Abraxas”. A sabedoria, também é um elemento assustador, pois o autoconhecimento envolve enfrentarmos os nossos pontos negativos, uma viagem ao Hades ou a carta da Lua. De toda forma, as representações bestais exprimem o transcendente em seus vários aspectos:

O pensamento religioso judaico-cristão enxerga dicotomia ao contrário dos seus predecessores cujas imagens grotescas simbolizavam corretamente a natureza por conter ambos os aspectos bom e ruim, bem e mal. A natureza teima em contrariar nossas tentativas de encontrar uma ordem predominantemente benéfica em seus desígnios — não importa a inocência de um bebê, a lei da gravidade será impiedosa se ele cair de um penhasco. Assim, determinadas entidades eram res­ponsáveis tanto pela proteção dos seus adoradores quando por prejudicar os inimigos de seus fiéis39. A representação visual de tais seres, não raro, seguia o grotesco, principalmente no estilo zooantropomórfico. Na língua acadiana existe um termo chamado ‘melamu’ que significa transcendência em termos metafísicos e povos pré-blíblicos expressavam isso nas formas bestiais das suas divindades que não foram entendidas pelos monoteístas hebreus. Essa visão melamítica ainda existe seja nas estátuas de Exu, seja em demônios propriamente ditos utilizados em cultos como os chamados, vulgarmente, de satânicos e até mesmo na imagem mágica de Aleister Crowley: a Besta de Sete Cabeças.” *

Abraxas e um lamassu, respectivamente.

O “Hierofante” era o título específico do sacerdote dos Mistérios de Eleusis** que representava o “Demiurgo” explicando aos postulantes da Iniciação os vários fenômenos da Criação, porém tal função era mais conhecida na Grécia antiga como “Mistagogo”. Sacerdotes não raro funcionam como “psicopompos, intermediários entre o mundo dos vivos e dos mortos; em termos de divindades, várias assumem essa função conduzindo a alma para o além-vida, como Hermes, Hécate, Iansã, Exu etc e o sacerdote conduz a alma em vida através da sabedoria espiritual. Sendo um mediador entre dois estados, um conhecido e outro desconhecido, a representação dupla, novamente, se faz coerente. Um detalhe: certos mistagogos ao morrerem assumiam a forma de uma besta com várias cabeças, daí uma das representações mais conhecidas desses sacerdotes na imagem alquímica abaixo:

Della tramutatione metallica sogni tre: Nazari, Giovanni Battista, fl. 1572

*“Thelema, Uma Introdução à Obra de Aleister Crowley.”, Frater Kalimann -Clube de Autores.

** Um culto de fertilidade agrário, de 6 a.C. a 4 d.C., prestado a Deméter que se estendeu por toda a Grécia e, na época romana, a todo o Império Romano. Tinha como base o mito do rapto de Pérsefone, filha de Deméter, por Hades.

“Faça o teu querer sem vontade vã.”

“Faça o teu querer sem vontade vã.”