O Livro Onde Deus Escreveu Demais

Prólogo

Tudo por causa de fornicação — pensou o serafim. Não sabia o que os mortais viam nisso, mas era uma prática que causava muitos problemas para eles. Reproduziam-se dessa forma, porém, não a utilizavam apenas para isso. Que soubesse, eram necessários apenas dois, mas já viu fazerem a três, quatro e mais; a ideia era de gêneros diferentes, mas já viu acontecendo entre gêneros iguais e também a três, quatro e mais. Enfim, era obra do Pai e não cabia a si, como um fiel servo Dele, questionar em demasia. O mensageiro celestial segurava com certa dificuldade um livro grande, volumoso e de aparência antiga cuja capa era branca sem qualquer inscrição. Observava uma cidade logo abaixo sendo consumida pelas chamas. Do precipício onde estava, via alguns de seus irmãos sobrevoando o local lançando rajadas de fogo através de suas bocas como dragões divinos, outros decapitando pessoas e destruindo moradias. Os que voavam tinham as tradicionais formas humanas com cabeças animais, asas de pássaro e portando espadas, porém havia outros no solo: eram como colunas de chamas rodopiantes queimando tudo por onde passavam. Notou que deixavam alguns poucos saírem, talvez para contar o que aconteceu.

I- No Qual a Redentora da Humanidade tem uma Síncope

Sophia dos Santos acreditava que astrologia funcionava com ela. Sendo de Gêmeos as características batiam: sociável, avoada e comunicativa. Gêmeos era do elemento Ar, relacionado a faculdade de raciocínio, velocidade e a volatilidade: sabe pouco de muito, opina sobre tudo, mas com pouca profundidade. E piorando o cenário, o ascendente também era de Ar, Aquário, o signo dos hippies, marcado pelas ideias revolucionárias e quebra de padrões. O ascendente é como a pessoa se mostra aos outros; o Sol, o seu signo, reflete como a pessoa é de fato, ou seja, era uma tagarela avoada e inteligente com jeito de doidinha. O recente livro sobre o tema que comprou era a sua mais nova paixão de infância e ocupava a sua cabeça nas últimas semanas. Essa divagação ocorria enquanto calçava o tênis e conversava com os pais pelo tablet ao mesmo tempo em que mandava mensagem para uma amiga do trabalho avisando que chegaria atrasada. Outra vez. Normalmente pegaria o metrô, mas a distância que separava a sua casa do trabalho em Russell Square não permitiria pegar o “tubo”. Levantou da cama tropeçando no livro de astrologia, pegou o capacete e a mochila na sala e bateu a porta. Voltou em seguida, pois esquecera as chaves da moto.
Acelerava como uma louca passando por entre os carros torcendo para os sinais estarem abertos na sua vez. A certa altura freou repentinamente em cima de um SUV quando o infeliz dono do veículo abriu a porta sem olhar antes. Assustado, o homem xingou a mãe da motociclista que retribuiu a crítica da mesma maneira, mas esqueceu que o som era abafado pelo capacete, então ergueu um dedo médio. Acelerou a sua moto vermelha de 500 cilindradas e sumiu ouvindo Daft Punk.
Chegou bufando no serviço, e mal entrou na baia o seu ramal tocou, era Edward String, o chefe, chamando-a. Tô fodida — pensou. Não que fizesse diferença no trabalho, pois rendia bem. Era analista de redes sociais desde a faculdade e, apesar de jovem, tinha muita experiência, mas sabia que havia a questão do exemplo. Não era a primeira empresa onde trabalhou, mas gostaria de ficar nela mais tempo. Dirigiu-se à baia do Edward que ficava no final da sala. No caminho reparou-se pelo reflexo de uma janela lamentando a falta da maquiagem devido ao atraso e prendeu os cabelos negros em um rabo de cavalo grande. Bateu à porta já entrando e recebeu um sinal para sentar. Bem direto, o chefe começou em tom protocolar:
Bom dia, Sophia. É a terceira vez que você chega atrasada em pouco mais de dois meses. Eu fiz vista grossa, pois os atrasos eram mais espaçados. Não vou perguntar se está acontecendo alguma coisa, já que é um padrão — Durante a reprimenda, ela tentava descobrir qual era o ascendente dele, já que existe uma teoria de que a aparência da pessoa está relacionada com esse aspecto astrológico. Sophia percebia alguns traços bovinos em Edward, então ficou entre Áries, Touro ou Capricórnio. Era alto com estrutura larga e como falava de um jeito calmo em demasia chutou Touro, por ser um animal grande e lento. Lembrou que ele era vegetariano, daí teve mais certeza no palpite. Segurou o riso ao imaginá-lo chifrudo e pastando — Não posso mais permitir que isso aconteça novamente. Se eu perder o controle com um, perderei com mais e atrapalhará o meu trabalho. Não sei como é no Brasil, mas aqui na Inglaterra é diferente. Entendeu — perguntou sustentando o olhar por incômodos segundos.
Entendi, Edward e peço desculpas, não acontecerá novamente — espero — pensou. Ela achou que ele soltaria algum elogio sobre a sua produtividade, mas não aconteceu. Ele não quis amenizar a advertência.
– Pode ir — disse virando-se para a tela do seu computador.
Sophia voltou para o seu lugar, tirou o casaco, sentou-se e ouviu o som de rodinhas, era Palavi Brooks, sua colega de baia deslizando na cadeira:
– E aí? Doeu?
– Nem, só que vou andar na linha, agora. É chato ser repreendida e acho que o Edward não está com muita paciência comigo
— disse ajeitando um plástico protetor que envolvia a tatuagem recém feita na parte inferior do antebraço — mas é segunda-feira, merecia um alívio. Palavi riu e reparou no braço da amiga.
– É nova — perguntou retoricamente aproximando-se para ver o desenho.
– É, fiz no sábado.
– Legal! Onde?
– Em um estúdio em Camden Town, no subsolo de uma loja de roupas. Lá o preço é bom.

– Acho que sei onde é. O que significa — indagou tentando decifrar a figura.
– É uma mistura do símbolo do deus Hermes com um circuito. Representa as coisas que mais gosto: magia e tecnologia, espiritualidade e ciência. Todo o braço esquerdo dela estava coberto de tatuagens seguindo essas temáticas, tinha de tudo: começava no ombro com o Ankh egípcio em cima de uma borboleta; logo abaixo Maria Aparecida em pé em um pentagrama da Wicca tomando todo o lado externo do braço; na parte de dentro um desenho abstrato de uma flor em padrão indiano com um Abraxas indo para o tríceps; um hexagrama unicursal thelêmico centralizado no cotovelo; na parte superior do antebraço um 9 ¾ e abaixo um circuito eletrônico que emendava na nova tatuagem do outro lado.
– A sua cara!
– E eu tenho cara de quê?
– Ah, de hippie high-tec
— Sophia não conseguiu esconder o sorriso. Brooks emendou:
– Então, vamos para o taekwondo hoje — perguntou ajeitando os óculos redondos de aros amarelos que contrastavam bem com o seu tom de pele indiano.
– Vamos, mas terei que ir antes em casa trocar de roupa, pois esqueci ao sair atrasada.
– Tudo bem, mas hoje quero pegar pesado, já que comi muito no final de sem… — Brooks interrompeu a fala ao perceber a amiga estática com os olhos arregalados, iguais aos das bonecas de filme de terror, para em seguida vê-la desabar inconsciente na baia.

II — No Qual Um Anjo Desce. Não Cai, Desce.

Santo Agostinho escreveu que o tempo é difícil de explicar apesar de sabermos o que é. Seja como for, ele para quando um anjo materializa-se na Terra. É um processo trabalhoso adaptar a consciência celestial a um invólucro físico. A consciência vem de um lugar… bem, não pode ser chamado de lugar, pois está fora do espaço-tempo, parece com os postulados geométricos como o ponto, que é algo formado por duas coordenadas e sem dimensão. A gente não entende, aceita. Igual as mulheres. Assim é o Pleroma: igual ao ponto, o tempo e as mulheres. Lá a existência é pura consciência, desdobramentos de Deus, em estado de completude, ordem, paz e eternidade, portanto a existência terrestre implica em adequação. Alguns chamariam de “queda”. Não deixa de sê-lo. O corpo habitado pela consciência angelical é formado pelo reaproveitamento dos átomos do local onde se materializa causando um vácuo seguido por uma pequena explosão e uma ressonância psíquica que afeta os sensitivos mais próximos. O resultado não é o mesmo do invólucro humano, pois é montado de forma a armazenar uma substância divina, por isso existem diferenças. Aparentemente são iguais aos mortais, todavia são capazes de certas coisas que eles não são. A aparência adotada obedece a certas leis, como as da hierarquia celestial: quanto maior o grau, mais bonito é o anjo na Terra. Serafins, querubins e tronos, por exemplo, são sempre mesomorfos, altos, musculosos, loiros, olhos azuis e de fisionomia agradável com dentes irritantemente brancos; já os anjos, simples mensageiros, dependem da sorte, como na concepção humana, a menos que o Senhor interfira diretamente, o que não foi o caso de Biel. O seu rearranjo atômico não foi muito feliz, pois manifestou-se baixo, com sobrepeso e cara de idiota. Se Deus o visse não diria que era bom.
Biel estava deitado de barriga para cima em um solo calcinado pelo processo. Após um breve período de adequação à gravidade, luz, sons e a um esquilo em cima dele esperando comida, levantou-se espantando o roedor e olhou em volta para identificar o local. Era um parque verdejante e extenso. Segundo o relatório que haviam lhe passado, estaria na Inglaterra, mais especificamente em Londres. Após alguns passos percebeu que estava nu. Ele não acreditou que materializaram uma estrutura complexa com um corpo humano, mas não fizeram o mesmo com tecidos. Ficou um tanto desesperado pensando em como arranjar vestimentas. Andou de um lado para o outro coçando a cabeça e pensando, sob o olhar atento do esquilo, sem chegar a conclusão alguma, fora roubar de alguém. Então ouviu uma pequena explosão luminosa espantando os pássaros na proximidade e roupas apareceram ao seu lado. Olhou para cima desconfiando de que seus irmãos aprontaram com ele. Vestiu a cueca, calça jeans, meias e botas. Pegou a camiseta, era preta com estampa do AC/DC escrita Highway to Hell. Olhou para cima novamente com cara emburrada, mas não podia fazer nada. Escondeu as asas para colocar o casaco, também, preto e começou a andar pensando na sua missão, porém, o primeiro passo era convocar um mortal para ajudá-lo na sua tarefa. Claro que não seria qualquer um, deveria ser alguém da Família. Pensando bem, seria o segundo passo, pois o primeiro era comer. Aquela forma humanoide veio ao mundo faminta.

III — Onde Sophia Viu Aquilo que Via

No início, ou melhor, antes do início nada existia. Bem… mais ou menos: existia e não existia ao mesmo tempo (e não havia o tempo ainda). Tudo o que viria a ser era um ovo. Parecia um ovo. De tartaruga. Daquela que suporta os elefantes que suportam a Terra Plana. Era redondinho como todo ovo daquele quelônio, sem começo nem fim, uma forma perfeita. Não era branco e refletia as coisas em volta. Mas não havia nada em volta. Não estava flutuando muito menos em cima de alguma coisa — já deu para perceber que não existia coisa alguma, apenas aquilo que parecia um ovo de tartaruga. Provavelmente marinha. Tudo o que havia, ou melhor, não havia, era um contínuo — perceba que a palavra “ovo” é um palíndromo, pode-se ler da direita para a esquerda e vice-versa. Então algo aconteceu: uma perturbação, um incômodo. O ovo agitou-se e, ao fazê-lo, perturbou o seu entorno que passou a existir ali junto com a ideia de tempo, pois havia agora o ovo antes e depois do agito. O que causou esse agito ninguém sabe. Místicos de toda a história humana em seus elevados transes espirituais reportam terem observado um ornitorrinco mordendo o ovo — faz todo sentido, pois ele é um animal tão incompreensível que seria o meio da limitada mente humana perceber o infinito. Então as vibrações aumentaram tanto (ou a mordida foi ficando mais forte) que o ovo explodiu em um som como uma voz de êxtase. Da sua casca partida em incontáveis pedaços surgiu a matéria; da sua clara a luz e da gema tudo o que engorda. O resultado foi o nascimento e a expansão do universo fazendo com que as coisas passassem a existir. A clara, ou melhor, a luz original desdobrou-se em emanações como um raio serpenteando pelas extremidades da existência estruturando o universo no seu zigue-zague cósmico. Padrões, leis e fenômenos surgiram, nem todos perceptíveis ao ser humano, alguns jamais outros apenas ocultos podendo ser apreendidos de outras maneiras, como por meditação ou um porre. O cosmos fervilhava em variedade de fenômenos, desde as efêmeras partículas deslocando-se em frações inconcebíveis de momento aos aglomerados de galáxias movendo-se lentamente em milenares ciclos de existência.

IV — Onde Sophia Conhece um Anjo Canino Mal-Humorado e Budista

Sophia? Sophia? — Chamava Brooks pela amiga, ajoelhada no chão ao seu lado; batia, de leve, no rosto dela tentando acordar a desfalecida. O pessoal da sala, atentos em volta da cena, não demoraram para ver Sophia acordar. Amparada pela amiga, sentou-se na cadeira para tomar um copo d’água trazido por um colega. Sentia como se tivesse sido atropelada por um avião ao cair do céu em um paraquedas rosa furado. O seu chefe perguntou o que havia acontecido e ela respondeu tocando um vermelhão entre os olhos decorrente da síncope. A dor não era apenas superficial devido ao impacto, mas parecia reverberar dentro da testa. A sua visão estava um pouco turva também, viu alguns vultos, mas aos poucos voltou ao normal. A única coisa que passava pela cabeça, após a rápida recuperação, era o emprego. Como não bastasse o atraso, parar todo o andar por um desmaio. Provavelmente Edward pensava que ela estava abusando de álcool ou coisas piores. Ele sugeriu que fosse descansar em casa, mas Sophia recusou. Descansar em plena segunda-feira é atestado de antiprofissionalismo — pensou. O que restava a fazer era dar 110% no trabalho para compensar tudo aquilo. Foi ao banheiro e retornou para a baia. Brooks aproximou-se e perguntou em tom baixo:
– O que aconteceu, doida?
– Não sei. Senti uma pontada na cabeça, uma dor muito forte e não vi mais nada. Acordei no chão com você me reanimando.
– Mas está tudo bem?
– No geral sim, mas estou com uma dor intermitente atrás dos olhos. Se não parar hoje amanhã vou ao médico
— Sophia achou melhor não contar das visões que teve. Não queria dar mais assunto ao ocorrido.
O resto do dia no trabalho correu normal. A enxaqueca foi diminuindo, porém a visão turvava vez ou outra. Ao chegar em casa jogou-se no sofá e relembrou a alucinação que teve. Ela sentia que estava em dois lugares ao mesmo tempo: conseguia sentir o chão da empresa, ouvir as vozes em volta junto com a viagem de cores e sons fora dali. Ela via o mundo, porém, com algo mais: gente emanando cores como auras no formato do corpo, algumas que pareciam pessoas, mas a aura tinham outra forma; lugares que pareciam inexistir mas, de alguma maneira, estavam ali e uma teia de energia colorida e extensa ligando tudo a todos em uma geometria impossível de descrever: conectava lugares a pessoas, lugares a lugares, lugares a não-lugares, pessoas a pessoas, pessoas a não-pessoas e a não-lugares… tudo interligado a tudo Ainda não entendia bem aquilo, mas a coisa parecia sedimentar na sua cabeça com o passar do tempo. Não demorou para cochilar.
Sophia acordou um pouco renovada e a fome bateu. Sem nada decente para comer em casa, desceu para comprar alguma coisa no centro comercial perto do seu prédio. No caminho passou por um cachorro que vinha no sentido oposto. Não era comum ver cães de rua ali, como no Brasil, e isso chamou a sua atenção; chamou ainda mais pelo animal passar olhando para ela. Era preto, médio porte, patas curtas e andar rápido; lembrava um fox terrier com aqueles bigodes peludos caindo pela lateral e orelhas curtas em pé. Usava uma coleira vermelha. Ela manteve o olhar e o bicho também até ambos virarem o pescoço enquanto andavam para não perderem o contato. Ela interrompeu voltando o rosto para frente intrigada com aquilo. Olhou para trás procurando-o, mas ele havia sumido na escuridão.
No meio do caminho para o centro comercial passou por um restaurante de comida típica inglesa e o estômago roncou. Bateu vontade de comer um típico peixe com fritas inglês, prato que já havia enjoado e não comia desde que chegara à Inglaterra aos 12 anos. Sem pensar sentou numa mesa externa e pediu um. Não demorou e chegou o prato. Na primeira garfada a sua memória voltou àquela época: o seu pai havia conseguido emprego em Londres e estabeleceu-se lá até que dez anos mais tarde decidiram voltar a Brasil. Ela ficou devido às melhores oportunidades profissionais na Europa. Os dois primeiros anos foram críticos para a menina devido à falta de habilidade com o idioma e pela idade, o início da adolescência, mas superou tudo.
Tirou o celular do bolso para verificar alguma coisa no Instagram quando reparou, no outro lado da rua, o mesmo cachorro sentado olhando para ela. Aquela cena a assustou. Ficou congelada por segundos meio que hipnotizada até decidir fotografá-lo. Seus dedos ágeis ajustaram a câmera e clicou uma sequência de fotos. Depois de conferir o resultado voltou a procurá-lo e, novamente, sumira. Apreensiva terminou o prato e foi comprar alguma coisa no centro comercial. Voltou assustada olhando em volta até chegar ao seu apartamento e relaxar. Mas sentiu que ele a estava acompanhando por todo o percurso, oculto nas sombras, como um stalker pequeno e peludo. Estava ligeiramente paranoica. Não. Totalmente paranoica.
Ao ir dormir conferiu novamente as fotos do animal. Ele parecia olhar profundamente para Sophia. Uma das coisas que mais atrai nos cachorros é o maldito olhar. Parece humano, se for tristonho então? Carinha de piedade? É um convite ao abraço ou pegar no colo. Mas aquele a fitava de modo estranho, estranhamente humano, chegava a falar com os olhos. Emanava um ar familiar, de alguém mais velho, como um avô, ao mesmo tempo um aspecto de seriedade e vigilância. Ao passar a sequência de imagens a sua visão embaçou e viu uma luz em volta dele como uma aura, mas não acompanhava a forma do animal; não, era diferente: irradiava como uma explosão branca. Lembrou da visão que teve mais cedo ao desfalecer. Pensou um pouco mais sobre o ocorrido do dia sem concluir nada e dormiu o sono das justas.
* * *
No dia seguinte correu tudo normal pela manhã até a hora do almoço quando foi fazer um lanche rápido na própria Russell Square. Ao sentar para comer um sanduíche com suco de laranja, viu na entrada do parque que vai para o Museu Britânico um sem-teto com um cachorro que parecia com o da noite anterior. Viu a coleira vermelha; era ele mesmo! Mas como? Ali era longe da sua casa. Inclinou-se em direção à dupla e instintivamente semicerrou os olhos para conferir quando viu a aura do animal, na mesma forma de explosão branca. Voltou a olhar normal e a aura sumiu; estreitou os olhos novamente e a aura ressurgia. Fez isso diversas vezes, pendulando o corpo parecendo uma perturbada da praça, obtendo os mesmos resultados até que o cachorro levantou-se e foi em sua direção. Sophia não tirou o olhar do animalzinho aproximando-se em seu trote rápido e saltitante, olhar expressivo e bigode felpudo. Ele chegou, sentou de frente a ela e falou sem mexer a boca:
– Conseguiu perceber como enxergar auras?
– É…é… si.. sim..
— respondeu desbussolada com o sanduíche nas mãos.
– Ótimo, não preciso perder meu tempo ensinando isso. Vai facilitar bastante as outras coisas. A propósito: chamo-me “Anatta”, o cão budista, e sou o seu anjo da guarda.
Sophia, estupefata, deixou cair o sanduíche no chão. O vira-lata cheirou primeiro e em seguida comeu tudo na voracidade de um leão faminto. Olhou para ela lambendo os bigodes e disse:
– Tem mais aí?

V — No Qual o Anjo Descido Encontra os seus Parentes Caídos

Biel comia com voracidade o segundo english breakfast servido em um prato oval com fritas, linguiça, bacon, feijão adocicado, ovo e pão de forma acompanhado de refrigerantes. Estava sob olhar dos donos do estabelecimento que acompanhavam discretamente a sua falta de modos à mesa. Pela aparência e sotaque, o anjo identificou origem nos povos adoradores dos deuses azuis que viu aos montes por ali fazendo o pensar que invadiram a ilha em algum momento.

“Faça o teu querer sem vontade vã.”

“Faça o teu querer sem vontade vã.”